Antes de mais, perdoem-me a ousadia de expressar saudade na “minha escrita”, já que também esta esteve de quarentena.

Muito se tem escrito sobre este fenómeno, que apesar de ser visto como algo único, se pensarmos um pouco já em diversos momentos da nossa história enquanto humanidade, povo, enquanto pessoas pertencentes a uma sociedade, deparamo-nos com realidades semelhantes, no século XIV com a peste bubónica que resultou na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Euroásia, com gripe espanhola, pandemia em 1918, do vírus influenza, que infetou 500 milhões de pessoas, há época um quarto da população mundial, ou com a gripe A, vírus da gripe  H1N1, pandemia que durou 20 meses de 2009 a 2010.

Na verdade, recebemos Covid 19 com surpresa e espanto, num mundo global, de interação, em que a possibilidade de mobilidade a todo o momento, para qualquer parte do globo é (ou era) uma realidade concreta, daí a cambiante da rápida propagação deste tipo de coronavírus. Penso que este vírus nos apanhou desprevenidos na nossa vida, no nosso pequeno mundo, no nosso egocentrismo, vindo provar de uma maneira muita dura, triste, e desoladora, que aquele cliché que parafraseamos inúmeras vezes, “Somos todos Iguais” veio a provar-se não pela positiva, mas pela hecatombe de mortes, que assistimos nestes últimos meses pela comunicação social, em países Europeus como a Itália, Espanha, nos EUA,  no Brasil…a lista é surpreendente….mas também aqui estamos nós incluídos Portugal…infelizmente somos uma aldeia global.

De tempos a tempos deparamo-nos com pandemias, e  para bem da sanidade mental, é importante interiorizarmos que muito provavelmente, e com muita pena para os nossos descendentes, este tipo de situação poderá ser mais assíduo, e não tanto pontual nas nossas vidas. Apesar da ciência atuar com a melhor rapidez possível, e acredito que em breve avançará uma vacina, capaz de criar os anticorpos  para que,  no contágio o nosso organismo tenha uma melhor atuação de combate, nós todos e todas estamos em constante movimento, interação, mobilidade, viagens de trabalho, de lazer…e isso será uma variável facilitadora para os vírus ( e bactérias), ou seja, uma variável de risco para a sua propagação.

Muito provavelmente daqui a uns meses lidaremos com esta Covid 19, como que se tratasse de mais um vírus, com o qual vamos conviver. No entanto, até chegarmos a essa fase, teremos de ser prudentes…precaução redobrada, nesta falsa aparência de melhoria.

De um modo geral, todos de um momento para viram as suas vidas sob um olhar diferente de como a conhecíamos, as dinâmicas associadas à vida familiar, aquilo que dávamos por adquirido, que nos parece tão banal, como um abraço, como um convívio, como ir trabalhar, ir à escola…é à força arrancado bem no nosso âmago, sem qualquer preparação, simplesmente de repente tudo já estava em pandarecos com a pandemia, havia que colmatar os danos colaterais, e tentar com a escassez de tempo, prevenir o possível.

É uma realidade que irá fazer parte do nosso quotidiano, não se saberá por quanto tempo, na certeza porém, e acreditando em tanto arco-íris que vi, e acreditando que a força positiva do ser humano, e a sua capacidade de adaptação são, não raras as vezes extraordinárias, que sim, abono na superação. Mas será algo que espero, enquanto sociedade coletiva, que mantenha preservada na sua memória recente e futura estes tempos, que se para alguns foram tempos razoáveis, para outras pessoas tem sido um caminhar no deserto, com a questão laboral, a educação das crianças, como pagar as despesas, e como por pão na mesa….a realidade por detrás da pandemia vai muito para além do que os nossos alcançam…

Fiquei um pouco perplexa com algumas figuras públicas, que a sociedade civil segue, ou pelo menos “ouve”, com verborreias dos tempos passados em família, como antes iam para shoppings, etc, e agora dão valor à família. Ora, caríssimos, penso que não seria necessário uma pandemia, para ser um valor prioritário a família, para a quem a quis, constituiu, e construiu…é deveras de mau tom, quando na porta ao lado, morrem pessoas, sem qualquer direito a um funeral condigno, e sem a presença de familiares, apanhados de surpresa pela enfermidade.

Seguindo em frente, a fragilidade da vida humana, manifesta-se de várias maneiras, sob diversas formas, esta foi para alguns arrasadora, e para aqueles e aquelas que tiveram tempo (sim, porque com teletrabalho, telescola, e vida doméstica, e tudo o que isso implica..) para refletir e pensar no que nos aconteceu, e que a qualquer momento pode sempre acontecer, fica por um lado uma angústia consciente do que nos poderia ter sido, e por outro lado a esperança de superação, porque acreditamos que há mais que um coronavírus que nos possa destruir. Somos estóicos, mas não somos invencíveis…e devemos interpretar este momento, como alerta para novos tempos, ou novas possibilidades para que estejamos mais preparados…abalos como estes serão permitidos de tempos a tempos, mas não com uma frequência que não permita ao ser humano restabelecer-se e reerguer-se…

A configuração social deverá ser repensada para estar preparada para estes momentos, para que a cada pandemia, e caso aumente a sua frequência, não se dê francos retrocessos, como o que vemos agora, toda a questão da socialização, é posta em causa, foi-nos ensinado a partilha, o comunicar com o outro, o estar na relação com o outro, as crianças aprendem e desenvolvem-se na relação com o seus pares…são retrocessos sociais, quer queiramos olhar ou não, são novas realidades….mas se calhar já vos macei muito…ficará para um próximo artigo…

P.S. – Não sendo propriamente um regozijo, vejo com bons olhos a humanidade que invade cada um/uma de nós nos gestos de solidariedade que vamos tendo conhecimento, vamos participando…isto sim, faz da Humanidade, do Homo Sapiens Sapiens um verdadeiro sobrevivente, adaptado….tal qual a teoria da seleção natural de Darwin… os mais unidos serão os mais adaptados…

Carla Mourão