O responsável da Autoridade de Saúde Regional dos Açores, Tiago Lopes, acusou hoje o líder do PSD/Açores de “oportunismo político” e de colocar em causa o trabalho dos profissionais de saúde no tratamento de doentes com covid-19.

“Colocar isso em questão, passadas todas estas semanas e todos estes dias, não é abonatório a favor de ninguém e lamento que exista agora esse oportunismo político da situação, porque efetivamente parece que estamos a regressar a essa normalidade e a pegar em situação que num bom senso que se pretende e que se apela a todos parece que muitas vezes não existe”, afirmou Tiago Lopes.

O também diretor regional da Saúde dos Açores falava, em Angra do Heroísmo, no ponto de situação diário sobre a evolução do surto de covid-19, numa reação às críticas do líder do PSD/Açores, José Manuel Bolieiro, que o acusou hoje de “graves falhas de comunicação” com o “resvalar para uma certa desumanidade e deslealdade, mesmo que não intencionais”.

“A comunicação de ontem [quinta-feira] revela esgotamento, com o resvalar para uma certa desumanidade e deslealdade, mesmo que não intencionais. Desumana para com as famílias das vítimas, pois podem ter ficado com a ideia de que nem tudo teria sido feito para melhor cuidar e salvar os seus idosos. Desleal para com os profissionais de saúde, que cumprem com ética o seu dever deontológico e o protocolo a que estão submetidos”, declarou, em nota enviada à agência Lusa.

Na quinta-feira, Tiago Lopes foi questionado sobre o facto de a maior parte dos 15 utentes que morreram na região não ter sido admitida numa unidade de cuidados intensivos.

O responsável disse que a maioria destes utentes tinha mais de 70 anos, maior vulnerabilidade para infeções respiratórias e outras patologias crónicas.

“São pessoas cujo prognóstico em alguns dos casos já era reservado à partida, logo no momento da admissão na unidade hospitalar. (…) Em alguns dos casos, quer por via dessa condição de doença não justificar – são aquelas decisões das equipas de saúde – o investimento e a submissão da pessoa se calhar a um maior sofrimento de colocá-la com medidas mais invasivas numa unidade de cuidados intensivos (…) não se chegou a registar esses óbitos nas unidades de cuidados intensivos”, acrescentou.

Confrontado hoje com as declarações do dirigente social-democrata, Tiago Lopes disse que a informação que é passada nas conferências de imprensa “pode muitas vezes ser interpretada de várias formas”, mas reiterou os elogios aos profissionais de saúde.

“Aquilo que foi transmitido foi que as situações são decididas e avaliadas em conjunto através das equipas de saúde das diferentes instituições e quando o são feitas não são feitas de ânimo leve. Colocar em causa o trabalho de todos os profissionais de saúde e todos os intervenientes que ao longo destes mais de 50 dias, agora neste momento, efetivamente é complexo, pelo menos. É a palavra que me vem à mente”, apontou.

O responsável da Autoridade de Saúde Regional salientou que a avaliação do tratamento a adotar é feita com base na “maior e melhor evidência científica”, mas que qualquer um dos profissionais de saúde “não terá descurado a sua vertente emocional”.

“Não pode, nem deve haver, por parte dos profissionais de saúde, uma tentativa de encarniçamento terapêutico e levar até às últimas consequências todas as tentativas de manutenção da vida humana”, frisou.

Por outro lado, disse que “as coisas nem sempre são pretas ou brancas” e que a responsabilidade que cai sobre os profissionais de saúde “não pode de alguma forma ser colocada em causa”.

“Todos nós temos essa oportunidade de pensar nas melhores opções que podem ser tomadas, mas não se pode colocar em causa esse trabalho e essa ponderação, que tem vindo a ser feita e irá ser feita ao longo dos próximos dias e das próximas semanas, porque não foi feito de ânimo leve”, afirmou.

Desde o início do surto foram confirmados 144 casos da covid-19 nos Açores, 58 dos quais atualmente ativos, tendo ocorrido 71 recuperações (46 em São Miguel, 10 na Terceira, sete no Pico, seis em São Jorge, três na Graciosa e três no Faial) e 15 mortes (em São Miguel).

A ilha de São Miguel é a que registou mais casos (106), seguindo-se Terceira (11), Pico (10), São Jorge (sete), Faial (cinco) e Graciosa (cinco).

Lusa/Rádio Faial | Foto: Direitos Reservados