O vice-presidente do Chega-Açores Orlando Lima demitiu-se da direção regional e do partido em protesto contra os dirigentes nacionais, que recusam integrar uma solução de direita para o Governo açoriano.

A carta de demissão, a que a Lusa teve acesso, está datada 28 de outubro e dirigida ao presidente do Chega, Carlos Augusto Furtado, intitula-se “Chega é o ‘Reino dos Céus’ ou coisa nenhuma” e critica abertamente a postura do líder nacional, André Ventura.

“É com enorme pesar que me afasto do Chega, a quem entreguei a minha dedicação incondicional e a minha esperança na transformação da sociedade açoriana que tanto necessita de uma voz reformista, na luta pela justiça social, pela democracia que cá não existe”, lê-se.

Para Orlando Lima, o Chega devia enveredar pelo “difícil mas desafiante caminho de assegurar, mediante cuidada negociação com os parceiros políticos à direita, uma alternativa de governação”, pois “negar uma alternativa de direita na governação regional será traição” e “este seria o papel de outro, nunca do Chega”.

“Como não sou gaja de ninguém, não dou para este Carnaval”, escreveu o ex-dirigente do partido nacional populista Chega.

“Lamentável postura centralista”, “defesa infantil dos interesses dos ‘cheganos’ nacionais” e “incongruências de discurso”, são as acusações de Orlando Lima a Ventura.

Segundo a direção nacional do Chega, aquele elemento, candidato a deputado regional pela Ilha Terceira, “quer é viabilização [do Governo Regional] sem reivindicações nacionais”.

“Lamento a demissão, mas tenho dito e repetido até à exaustão que não podemos ter dois ou três Chegas diferentes. Há um Chega. Não podemos ceder nas nossas convicções, mesmo a nível local ou regional. Esperamos resposta do PSD às nossas exigências. Continuamos a falar com o PSD, mas não integraremos o Governo dos Açores”, disse Ventura à Lusa.

O líder nacional do Chega terá imposto quatro condições para a viabilização de um Governo Regional açoriano liderado pelo PSD, um dos quais a participação social-democrata no processo de revisão constitucional, que prevê a prisão perpetua ou a castração química de pedófilos, por exemplo.

“As informações que eu tenho relativamente aos Açores – o partido tem autonomia – é que se está a tratar de reeditar a Aliança Democrática do tempo do dr. Sá Careiro. Uma coligação entre PSD, CDS-PP e PPM. Faltam só os reformadores, que era um grupo individual”, afirmou hoje Rui Rio.

O PS venceu as eleições regionais nos Açores de há uma semana, elegendo 25 deputados para a Assembleia Legislativa Regional, mas um bloco de direita, numa eventual coligação (integrando o executivo ou com acordos de incidência parlamentar) entre PSD, CDS-PP, Chega, PPM e Iniciativa Liberal poderá funcionar como alternativa de governação (maioria absoluta de 29 parlamentares).

O PAN, que também elegeu um deputado, pode igualmente vir a viabilizar um outro executivo que não do PS, partido que governa o arquipélago desde 1996.

Lusa/Rádio Faial | Foto: Eduardo Costa/Lusa